quarta-feira, 5 de março de 2008

Via Campesina combate 'deserto verde'


Cerca de 900 mulheres da Via Campesina ocuparam nesta terça-feira a fazenda Tarumã, de 2.100 hectares, no município de Rosário do Sul, a 400 km de Porto Alegre. As mulheres realizaram o corte de eucaliptos e o plantio de árvores nativas em área que pertence à empresa sueco finlandesa Stora Enso.

A transnacional vem comprando dezenas de propriedades rurais no Estado, próximo da fronteira com Uruguai, embora a legislação brasileira (lei nº 6.634 de 1979; e o artigo 20, parágrafo 2 da Constituição Federal) proíba empresas estrangeiras de adquirir terras localizadas na faixa de 150 km da fronteira.

A meta da empresa é formar uma base florestal de mais de 100 mil hectares e implantar fábricas na região.

Em nota distribuída à imprensa, as mulheres declararam o seguinte: "Nossa ação é legítima. A Stora Enso é que é ilegal. Plantar esse deserto verde na faixa de fronteira é um crime contra a lei de nosso país, contra o bioma pampa e contra a soberania alimentar de nosso estado que está cada vez mais sem terra para produzir alimentos. Estamos arrancando o que é ruim e plantando o que é bom para o meio ambiente e para o povo gaúcho".

Mídia e liberdade, segundo Chomsky


O Le Monde Diplomatique Brasil entrevistou certa vez o lingüista e professor do MIT, Noam Chomsky, e lhe perguntou por que sempre que o jornalista é indagado se sofre pressões ou censura, a resposta é invariavelmente "não".
Ao que Chomsky respondeu:

"Quando os jornalistas são questionados, eles respondem de fato: "nenhuma pressão é feita sobre mim, escrevo o que quero". E isso é verdade. Apenas deveríamos acrescentar que, se eles assumirem posições contrárias à norma dominante, não escreveriam mais seus editoriais. Não se trata de uma regra absoluta, é claro. Eu mesmo sou publicado pela mídia norte-americana. Os Estados Unidos não são um país totalitário. Mas ninguém que não satisfaça exigências mínimas terá chance de chegar à posição de comentarista respeitável.
Esta é, aliás, uma das grandes diferenças entre o sistema de propaganda de um Estado totalitário e a maneira de agir das sociedades democráticas. Com certo exagero, nos países totalitários, o Estado decide a linha a ser seguidae todos devem se conformar. As sociedades democráticas funcionam de outra maneira: a linha jamais é anunciada como tal; ela é subliminar. Realizamos, de certa forma, uma 'lavagem cerebral em liberdade'.
Na grande mídia, mesmo os debates apaixonados se situam na esfera dos parâmetros implicitamente consentidos - o que mantém na marginalidade muitos pontos de vista contrários. O sistema de controle das sociedades democráticas é mais eficaz; ele insinua a linha dirigente como o ar que respiramos. Não percebemos e, por vezes, nos imaginamos no centro de um debate particularmente vigoroso. No fundo, é infinitamente mais teatral do que nos sistemas totalitários. (...)"

A resposta de Chomsky prossegue, mas me limito a reproduzir este trecho, que já é mais do que suficiente.

Coro grego nas redações


Mino Carta comenta sobre os jornalistas brasileiros: Algo que sobremaneira me intriga é porquê os jornalistas nativos chamam seus patrões de colegas. Adulação? Sabujismo? Medo de perder o emprego? Não sei, mas está claro que não se dão a respeito. O Brasil é o único país do mundo ao meu alcance onde tal situação ocorre. Existem até aqueles em que ao patrão é vedada por lei a carreira jornalística. Aqui os homens até ganham carteirinha do sindicato. E como se empenham, os jornalistas autênticos, a favor das idéias de quem lhe paga o salário... Ora direis: os pensamentos de uns e outros coincidem. À perfeição. Tim-tim por tim-tim. É jogo de equipe. Como nas famílias mafiosas.
O capo-di-tutti-i-capi ordena, os soldati e os picciotti executam. Claro que soldati e picciotti da mídia nativa não matam, ou, simplesmente, não quebram pernas de quem não paga o pizzo. Defendem, porém, os interesses da minoria contra aqueles do país. No mínimo, e de cara lavada. Quando não acusam sem prova, difamam, caluniam. Até onde chega este gênero de submissão? Até o fundo do poço. E, em alguns casos, a situação mereceria a intervenção do coro grego. Pois é difícil, se não impossível, entender como indivíduos de QI razoável e algumas leituras possam sujeitar-se a tanta curvatura, intelectual e moral.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Fidel Castro em ação

Uma nova etapa em Cuba


Aos 81 anos, Fidel Castro anunciou nesta terça-feira seu afastamento do poder em Cuba. A formação do novo governo será designada no próximo domingo pelo Parlamento. "Felizmente nosso processo conta com quadros da velha guarda, junto a outros que eram muito jovens quando começou a primeira etapa da Revolução", escreveu Fidel em texto publicado no Granma, jornal do Partido Comunista Cubano.

Desde julho de 2006, quando o líder foi acometido de uma doença, está à frente das figuras históricas da ilha o irmão, Raúl Castro, um general que o acompanhou em todas as batalhas desde a revolução de 1959. Com 76 anos, Raúl é o favorito para sucedê-lo formalmente no poder durante os próximos cinco anos.

Fidel deixa a cadeira de presidente de um país que, após 49 anos de revolução alcançou avanços incontestáveis, reconhecidos por organismos internacionais, como ONU e OMS, que atestam a incrível evolução de índices de saúde, educação, emprego e de redução da miséria. É claro que há problemas, mas boa parte deles resultado do inaceitável embargo econômico imposto pelos EUA – condenado, aliás, pela maioria esmagadora dos membros da ONU.

De acordo com pesquisa da Pnud, o índice de pobreza de Cuba entre os 102 países em desenvolvimento pesquisados era o sexto menor em 2004. Segundo a ONU, em 2003, a mortalidade infantil de Cuba era de 6,2 habitantes para cada 1000 (no Brasil, o índice era de 28,6 por 1000). Em 2006, Cuba obteve a 50ª colocação no ranking de IDH, situada entre os países de alto desenvolvimento humano (o Brasil é o 69º). A mesma pesquisa colocava o índice de analfabetismo cubano em 0,02% da população (no Brasil, a taxa era de 13,7%).

A CIA, central de inteligência americana, que organiza o "World Fact Book", um levantamento anual de dados sobre os países do mundo, estimava em 1,9% o desemprego em Cuba. No Brasil, segundo a mesma fonte, o índice era de 9,6% no ano passado. Ainda de acordo com o "World Fact Book", a expectativa de vida ao nascer na ilha era de 77,41 anos -contra uma esperança de 71,9 anos no Brasil.

Mescla de gerações - Apesar da presença de velhos companheiros revolucionários no governo, entre eles, José Ramón Machado Ventura, influente membro do PC, com 76 anos, o ministro do Interior, general Abelardo Colomé, 67 anos, que se uniu à guerrilha ainda adolescente, e o comandante Ramiro Valdés, ex-ministro do interior de 75 anos e agora à frente das Comunicações, Fidel recomendou que o novo governo inclua também dirigentes mais jovens. "Nosso processo dispõe da geração intermediária que aprendeu conosco os elementos da complexa e quase inacessível arte de organizar e dirigir uma revolução", acrescentou.

Essa geração está encabeçada pelo vice-presidente Carlos Lage, 55 anos, considerado o "arquiteto" das reformas econômicas da década de 1990 e um possível candidato a ocupar o atual posto de primeiro vice-presidente dos conselhos de Estado e de Ministros se Raúl for nomeado presidente. Outra figura emergente é o chanceler Felipe Pérez Roque, 41 anos, formado politicamente como secretário de Fidel durante quase uma década e hoje um articulado diplomata capaz de defender o sistema na Assembléia Geral das Nações Unidas. No domingo, quando o Parlamento votar uma lista única de 31 candidatos a igual número de cargos no Conselho de Estado, os habitantes desta pequena ilha do Caribe estarão dando os primeiros passos de uma nova etapa histórica.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Por que crescem as despesas correntes

A tese de que o Estado brasileiro é ineficiente e gasta muito com despesas correntes, que deveriam ser reduzidas, é recorrente no país. O que não se fala é por que essas despesas aumentam e a quem beneficiam. Essas respostas estão no excelente estudo de número 1319, Despesas Correntes da União: Visões, Omissões e Opções, do Ipea, assinado por Ronaldo Coutinho Garcia.
Confira abaixo comentários sobre o trabalho e confira a sua íntegra no endereço: href="http://http://ipea.gov.br/sites/000/2/publicacoes/tds/td_1319.pdf"

"Na atualidade, são muitas as vozes que insistentemente clamam por redução das despesas correntes do governo federal. Advogam que teriam crescido vertiginosa e insustentavelmente. Insistem que a diminuição é condição para a retomada dos investimentos públicos e para a ativação da economia. Concluem, quase sempre, dizendo que, por isso, o governo é ineficiente.

Essas afirmações estabelecem uma relação direta, determinista, entre elevada participação das despesas correntes na despesa total e ineficiência. Se a decorrência desejável é aumentar a eficiência global do governo, o caminho proposto, cortar as despesas correntes, pode revelar-se enganoso e, no limite, bastante problemático, mesmo que se reconheça que tais despesas são realizadas sem que alcancem a eficiência possível.

As Despesas Correntes da União (DCUs) cresceram muito nos últimos tempos. Hoje beneficiam diretamente uma enorme massa de brasileiros que, em passado não distante, desconheciam a presença do Estado, os seus mecanismos de proteção e os seus serviços construtores de cidadania, por incipiente que sejam. Estas despesas animam as economias dos pequenos municípios espalhados pelo país, ampliam o mercado para os bens de consumo acessíveis às suas rendas, gerando empregos e impostos, retirando alguns da marginalidade e dando a outros oportunidades que não teriam.

Mas a principal causa do crescimento das Despesas Correntes da União não foi o aumento dos gastos sociais ou com pessoal. Quem mais impulsionou o crescimento das DCUs foram as despesas com juros e encargos da dívida. Dado que a dívida pública mobiliária federal interna, em valores reais, foi multiplicada por sete, entre 1995 e 2006, e tem sido remunerada com taxas de juros sempre das mais altas do planeta[0], é inevitável que pressione por aumento da carga tributária, comprima os investimentos públicos, exija superávits primários elevados e, mesmo assim, não pare de crescer."

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Lula e Raul fecham acordos comerciais


A exploração de petróleo, a criação de uma empresa mista para construir uma fábrica de lubrificantes, créditos milionários para a compra de alimentos e a modernização de uma fábrica de níquel em Moa (leste da ilha) foram os principais acordos fechados pelo presidente Lula com o governo cubano, em sua visita à ilha nesta semana.
Lula encontrou-se sozinho com Fidel Castro, sem a presença de outros integrantes de sua comitiva.
A visita ao líder cubano, de 81 anos, em local secreto, concentrou a expectativa da viagem relâmpago de Lula à ilha. A confirmação da reunião foi dada à imprensa apenas quando o encontro já estava em andamento, pois dependia, de acordo com autoridades brasileiras, de uma decisão dos médicos. Na verdade, a visita de Lula ao líder cubano tardou demais para quem sempre recebeu atenção especial de Castro.
Antes do encontro, Lula selou dez convênios com Raúl Castro, presidente interino, durante uma cerimônia no Palácio da Revolução, em companhia dos presidentes das petroleiras estatais, de chanceleres e de ministros do Comércio, Saúde e Educação.
"Estamos começando as análises sísmicas, para depois começar a atividade de perfuração. No momento, estamos terminando a aquisição de dados sísmicos", explicou o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli. Após os estudos, em seis meses, serão definidos em quais dos 35 blocos disponíveis em águas cubanas do Golfo do México (de um total de 59) a Petrobras investirá, disse o diretor da empresa Cuba Petróleo (Cupet), Fidel Rivero.
"Têm especialistas e alta tecnologia, são líderes mundiais em perfuração de águas profundas", comentou, acrescentando que, nos restantes 24, trabalham companhias de Espanha, Canadá, Malásia, Venezuela, Índia, Vietnã e Noruega, sob contrato de risco. Ambos os países concordaram em estudar empréstimos para projetos de hotelaria, farmácia, biotecnologia, infra-estrutura viária, indústria açucareira e transporte. Segundo a imprensa local, o financiamento seria entre 600 e 800 milhões de dólares.
O ministro brasileiro da Saúde, José Gomes Temporão, disse que, em biotecnologia, acordou-se um contrato de licença de patentes e transferência de informação técnica sobre o fármaco Interferon. Além disso, avança-se na forma de validação de títulos de médicos brasileiros graduados em Cuba.
Comércio - O Brasil, segundo sócio comercial de Cuba na América Latina e quarto do continente, atrás de Venezuela, Canadá e Estados Unidos, tem importantes investimentos na ilha, ampla cooperação em saúde e um intercâmbio comercial que cresceu de 117 milhões de dólares em 2002 para 453 milhões, em 2006, 429 milhões em vendas brasileiras.